segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Implantação da República


Joshua Benoliel, Proclamação da República: o povo junto à Câmara Municipal (Lisboa, Outubro de 1910)
Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa


No dia em que se celebram precisamente os 100 anos sobre a Implantação da República, nada melhor do que escolher uma fotografia que representa aquilo que foi esse dia. Esta imagem, portanto, simboliza aquilo que a maioria da população urbana do país pretendia, adivinhava e ansiava: Revolução

E porquê Revolução?Antes de mais, porque houve uma alteração no regime político vigente. Depois, porque esse regime, tendo em conta os seus ideias de justiça e democratização com base nos ideiais da Revolução Francesa, promoveu alterações na sociedade do Portugal dos inícios do Século XX, acima de tudo no domínio da educação e direitos sociais.

É essa sociedade que se retrata nesta fotografia do famoso e fantástico artista da fotografia Joshua Benoliel. A representação das gentes sempre foi uma das suas paixões e um dos seus maiores legados. Neste caso, ele retrata o momento em que a população lisboeta ouve a proclamação da República por José Relvas na varanda dos Paços do Concelho, na Praça do Munícipio.

No entanto, não podemos esquecer que estamos a falar de uma sociedade portuguesa extremamente dividida em dois perfis: o urbano e o rural. A par do operariado fabril e oficinal, vemos surgir um universo de pequenas profissões composto por artesãos, marçanos, caixeiros, barbeiros, alfaiates, sapateiros, pequenos assalariados, funcionários públicos ou empregados de escritório. A elite urbana de profissões liberais e intelectuais que será a classe dirigente e a elite intelectual do republicanismo composta, sobretudo, por médicos, advogados ou engenheiros é outro dos polos essenciais na nova estratégia social que começa a surgir nos últimos anos do século XIX.

Ou seja, o cidadão da cidade, principalmente Lisboa e Porto era tendencialmente republicano e consciente de que era necessária a mudança de regime, no intuinto de melhorar as deploráveis condições de vida e alterar o rumo da decadência e do rotativismo laxista monárquico. Já lia ou, quando não sabia ler ( a maioria), ouvia a leitura do jornal, falava e debatia nas tascas, tabernas e cafés a situação da actualidade. Mais do que uma adesão genuína ao republicanismo, existe, por parte deste grupos sociais, uma vaga de descontentamento, uma oposição a uma monárquia cada vez mais impopular e com menos apoios.

Já a população rural, ainda mais analfabeta, não tinha grande conhecimento nem queria saber do Rei ou do Presidente da República. Queria, acima de tudo, trabalhar de sol a sol, no sentido de ter algum pão para comer às refeições. Este é o perfil da maioria dos portugueses: Católicos, altamente influenciáveis pelo "senhor" da terra, analfabeto, em suma, não republicanos.

As comunicações entre o mundo rural e o urbano são lentas. Os Caminhos-de-Ferro estão a começar a servir a maioria do território português mas de forma muito lenta e pouco democratica no que toca à sua utilização. Daí não ser de estranhar que, por exemplo, em Aveiro, só dois dias depois se tomou conhecimento do golpe político em andamento. Ou seja, na prática, a República é implantada em dias diferentes, consoante a região do país.

Em jeito de conclusão, pode-se dizer num país analfabeto, rural, atrasado, católico e que no essencial não era republicano, a Lisboa republicana, operária e revolucionária, constitui-se como o elemento chave, que instaurará a República a 5 de Outubro de 1910, numa Europa, ainda esmagadoramente monárquica.

PS - No entanto, e apesar do legado deixado (toda a HIstória tem a sua importãncia, nem que sejam ensinamentos para o futuro), a I República não traz estabilidade a Portugal. De facto, mesmo neste novo regime, Portugal continua constantemente a ter sucessivos Governos. No fundo, e numa antítese do ditado popular: "mudam-se os tempos, mantêm-se as vontades"...

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